sábado, 21 de agosto de 2010

AVENTURAS NA TOCA FEIA (ACONTECIDAS)


Bom. Está preparada para ouvir mais um "causo"?

Então eu vou contar.

O pessoal fala da TOCA FEIA, que é isto, que é aquilo, mas, será que eles sabem mesmo o que ela é?

Falando resumidamente. Eu estive lá diversas vezes na década de 60, desde moleque. Nas duas últimas fui muito longe, eu acho.

Na penúltima vez éramos uma turma numerosa, mas no fim quem continuou fui eu e o Massacatu. Sempre íamos atrás da lenda de que havia outra "saída" na outra ponta. Qual o quê. A maior parte do tempo você tem que rastejar sobre pedras, com o corpo na água e a cabeça batendo no teto. Tem um trecho que você entra numa espécie de bueiro que mais parece uma boca de forno de padaria e você sobe um pouco e depois vira de ponta cabeça e não pode se virar para voltar, tem que ir adiante. E continua descendo cada vez mais. Até que se chega num lugar que o corredor forma uma espécie de bacia e você encontra areia no fundo. Aí começa a subir. Oba, chegamos no meio do caminho! Que nada, mais adiante começa a descer de novo e a coisa vai se complicando. O ar que já era quase nada começa a ficar pior ainda. Você dá alguns passos e já está cansado, tem que sentar e esperar mais um pouco. Os morcegos já estão bem longe, que eles não são nada bobos. Até que você então, finalmente, desiste e decide voltar.

E os nossos faroletes?! Tudo improvisado, amarrados com arame. E os medos? Lá você descobre que o medo é transmissível. Se todos estão firmes, todos prosseguem. Se um começa demonstrar temor de alguma coisa, qualquer coisa, aí os outros também desmoronam. Aí você aprende a ser firme e não pensar em nada e muito menos deixar que os outros percebam. Eu sei que depois dessas aventuras eu deixei de ter medo de muita coisa e até consegui superar alguns pesadelos que vou te contar em outra hora.

Era muito sofrimento e não era coisa para qualquer um. Tinha que estar muito em forma. Depois que você saia você ficava uns dois dias com o corpo todo dolorido, como se tivesse levado uma surra e jurava nunca mais fazer aquilo de novo.

Na caverna você não percebe o tempo passar, diferente do lado de fora. Também é mais quente, você não sente frio, mesmo com o corpo na água. O mais interessante era quando você estava retornando e começava a enxergar a luz de fora. É indescritível. Você via o mundo numa tonalidade de azul, um azul sutil, diferente e que ao mesmo tempo dominava o ar, as plantas, tudo. Como o mundo ficava lindo nessa hora, não havia coisa igual. E respirar o ar puro. Aquele ar que vem dos lados do rio Taquari, tem um cheiro que é só dali, não existe em nenhum outro lugar, você sabia?

Nessas vezes, tínhamos as músicas que tocavam dentro das nossas cabeças: "Súplica Cearense" (talvez pelo sofrimento), a "Roda Viva" do Chico Buarque (com o coro grave do MPB4), "Look to your soul" do Johnny Rivers (que me parecia uma mistura de mistério com alguma "deprê").

É uma coisa muito arriscada, não é recomendável ir tão longe. Por isso eu acho muito difícil alguém ter feito o que fizemos, pois, eu acho que os especialistas mais preparados não vão e dirão que lá não é um lugar para se arriscar tanto.

Um dia eu voltei lá e quando senti aquele ar, todas as lembranças voltaram na mesma hora.

Ai, ai. Acho que já estou abusando. Me desculpe, é essa minha vontade de lhe contar tudo.

Deste que muito lhe admira, seu amigo,
Wagner.


Que nada amigo...
pode continuar me contando suas Aventuras de "moleque"...
eu adoro!

2 comentários:

Anônimo disse...

Boa noite! Meu nome é Rafael Bizzo de Souza, sou de São Bernardo do Campo, e já passei sufoco nessa Toca feia. No carnaval de 2002, fomos numa tarde eu, Julio, Neri, Fabião e um camarada nos aventurar a entrar nesta gruta. Estávamos numa ressaca tensa (na noite anterior até havia tomado glicose no hospital de Itaí. Logo na entrada todos desviavam nas paredes cagadas e da porrada de morcego que voavam em direção ao nosso rosto, visto que engatinhando e com uma lanterna na mão ficava difícil desviar. Avançamos bastante, passamos por passagens tão pequenas qual se passava apenas uma pessoa magra se arrastando. Porém, quando estávamos numa certa profundidade, ouvimos um barulho muito forte, um som de cachoeira misturado com chuva forte. Lembro que alguém perguntou "que barulho é este?", e se não me engano, o Neri que respondeu "é água que vem vindo". E veio mesmo. Do lado de fora parece que caia uma forte chuva de verão, estourando o rio que estava logo acima da gruta, formando uma corredeira que rapidamente nos atingiu. Alguém sugeriu que nós aguardássemos a água diminuir seja para prosseguir, seja para voltar, pois andar de joelho com uma correnteza na altura do umbigo não ia ser fácil. Mas a água começou a vir mais forte, e já subira além do peito quando eu disse "essa água num vai para, vai é inundar isso daqui" e resolvemos voltar desesperadamente. Lembro que toda frescura inicial com fezes e morcegos já haviam sumido totalmente. E o que estava sumindo também era nossa luz, já que na pressa, a lanterna por várias vezes foi atingida pela água, e muitas vezes fora submersa sempre que avançar contra a água nos desequilibrava. De 4 lanternas, restavam apenas 2. Lembro que alguém da turma tinha uma ligeira hidrofobia, e travou no caminho; e no "salve-se quem puder", se eu não tivesse reparado que o mesmo ficara ali parado e o puxasse para continuar, só sairiam 4 de lá. A água não parava de subir, e engatinhar numa altura de no máximo 1m com apenas 1 palmo de ar para respirar deixava o trajeto cada vez pior. Lembro de ter pego uma pedra na qual eu carregava para caso inundasse tudo, uma bela pedrada na cabeça me isentaria da sensação de morrer afogado consciente. Mas era apenas uma ideia estúpida que passara e abandonara rapidamente minha cabeça, que foi tomada por uma necessidade monstruosa de sobreviver. Por muitas vezes, engolimos água com merda de morcego junto a forte correnteza que nos puxava para dentro. Chegou uma hora na qual o caminho que usamos pra entrar estava já submerso, nos forçando a estacionarmos em um pequeno salão onde a água ainda não havia tomado. Desligamos as duas ultimas lanternas, e enquanto, no escuro, sentíamos a água nos alcançar, era possível ouvir uns rezando, outros fazendo promessas. Quando o Neri, que estava mais avançado, conseguiu ver uma luz - a entrada da gruta estava próxima. Deu-se então uma disparada, no qual a saída da Toca feia foi como, literalmente, um renascimento. A luz do sol era mágica, e o céu já estava limpo e azul, sendo que o rio que havia estourado nos banhava com uma bela cachoeira, na qual era possível ver, um a um, saindo sujo e acabado, passando entre na queda d'água como num batizado, e ver toda imundice que antes habitavam a pele e as roubas escorrer para dentro da toca, como se fosse um ralo.

hapkidocontato disse...

Ola. Realmente a Toca Feia é algo inigualável. Sou Espeleólogo, e sempre explorei tanto como explorador como pesquisador, e uma dia eu meu irmão e nosso amigo Sergio, tivemos o gosto de experimentar essa caverna, que é de longe, inesquecível.
Muito legal, logo estaremos de volta, mas desta vez com equipamentos para mapear seu curso.